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18/09/2010

Senhoras e senhores: Gian Le Fou

Eu nunca namorei. Olha que idiotice: uma pessoa como eu, amante da arte mais fina (tudo bem, eu ouço Lady Gaga e às vezes dou uma espiadinha na novela, admito) começando um texto em prosa (algo que eu ainda nao costumo fazer, a não ser algumas críticas de filme, que por sinal, faz tempo que não escrevo uma) falando em namoro. Mas entendam: eu tenho quase vinte anos e cada vez mais tenho a sensação que eu não vivi absolutamente nada, minha vida é uma página em branco (eu vou usar muitos clichês nesse texto, acostumem-se, mas acho que vocês não ligam muito, não é?). E essa sensação vem principalmente de duas coisas: a que eu já falei, de eu nunca ter namorado, e também a de eu nunca ter criado laços fortalecidos de amizade . Eu nunca briguei sério com ninguém, nunca bati em ninguém, nunca apanhei, nunca traí ninguém, nunca fui traído, nunca mandei flores no dia dos namorados (eu falei que eu iria usar clichês), nunca fui a pessoa mais importante na vida de ninguém (por favor, não pensem em família nesse caso, seria humilhante demais), nunca fiquei uma semana transando adoiado com meu namorado, nem viajei para as montanhas, nem tirei aquelas fotos muito legais de um casal dividindo um sorvete (eles ainda fazem isso?). Sabe o Orkut? Então, eu nunca coloquei 'namorando' no meu perfil, as pessoas devem ter uma satisfação enorme quando trocam de status...

Acho que meus amigos não sabem, mas eu morro de inveja quando eles me contam que brigaram com o namorado, ou quando eles me contam que terminaram e partiram para outra, pois eu nunca parti para outra, na verdade, eu nunca parti, quer dizer, eu nunca comecei, então eu nunca terminei nada. Minha vida, uma página em branco. É branco, branco, branco, como os crânios de Sylvia Plath.

Ah, falando em amizade. Bom, eu amo meus amigos, apesar de saber que eu poderia ter aproveitado muito mais a companhia deles e ter deixado as minhas besteiras pseudo-intelectuais de lado. Como eu vou ter amigos falando de Marlon Brando ou de Anne Sexton? Acorda, Gian!! É por isso que eu nunca passei um ano novo com algum amigo. Você tem que entrar numa companhia de petróleo e ir no show do Bruno e Marrone, dançar até morrer e vomitar caipirinha. Detalhe: Você TEM que fazer isso TODOS OS FINAIS DE SEMANA, para manter aquela regularidade inebriante de estar aproveitando a vida. Esqueça Clarice Lispector e Marilyn Monroe, elas estão mortas e enterradas (eita, clichê bonito!!), então ninguém quer saber de você falando de defuntos, até a Madonna ninguém suporta mais...Esses dias eu mostrei meu livro de fotos da Monroe para uma turma que eu dou aula e eles disseram que os peitos dela eram 3:45 (sei lá que merda é essa, só sei que elas não queriam saber que ela foi casada com um dos maiores escritores do século passado).

Mas vou ser justo. Eu tenho amigos que até gostam de me ver falando das frases clássicas de O Mágico de Oz ou do roteiro de uma Uma Rua Chamada Pecado. Tem uns que até gostam de me ver citando Sylvia Plath. Eu acho lindo, morro de tesão, mas isso é tão duradouro quanto um bom banho quente.

E eu não vou ser prepotente também: eu ainda não li centenas de livros obrigatórios e não vi centenas de filmes obrigatórios, então não sou expert nisso, na verdade não sou expert em nada, o fato de eu não ter autoridade sobre coisa alguma me atormenta como o corvo de Poe. Perceba eu falando de obrigatoriedade na cultura, ao invés de estar pensando em mudar de curso e fazer Odontologia ou algo parecido. Branco, branco, branco, branco, como os crânios de Sylvia Plath.

Ah, profissões! Eu acho que sou anti-social porque eu odeio a maioria das profissões. É sério, passar a vida num barco analisando sei-lá-o-quê do petróleo ou estudando arcada dentária? O homem já tinha que ter criado robôs para quase todas as profissões: para a medicina, engenharia, odontologia, biologia, arquivologia (I beg your pardon?), análise de sistema, licenciatura, biblioteconomia (HAHAHAHA). A única coisa que robôs não são capazes de fazer é a de criar arte (se bem que eu li na Super Interessante que existe um software que cria sinfonais melhores que a de Mozart!). Daqui a pouco a gente vai tá lendo Best-Sellers (a massa ama) escrito pelo robô 25411-256211455411. Até mesmo a área da psicologia tinha que ser regida por robôs, porque psicólogos não servem para nada, psiquiatras muito menos. Esses dias eu fui em um e ele me disse que eu não iria ficar louco, pois loucura é coisa de rico. Além de ter me atolado de remédios (que por sinal eu nem fui lá pegar a receita pois meu plano de saúde está atrasado), ele ainda me achou com cara de pobre. O pior que eu sou mesmo. Pobre tem cara de pobre. Freud explica.

Eu queria mesmo ser um escritor renomado, culto, que seria estudado por gerações e gerações. Eu às vezes até penso em arriscar e escrever sobre dois vampiros apaixonados e ganhar muito dinheiro com isso, ou falar que fui para o deserto e conversei com um monte de anjos. Mas a Meyer e o Coelho já fazem essa papel muito bem, e eu não quero ter a rePUTAção que eles tem.

Até ator da Globo eu não quero ser. Esses dias um amigo ficou falando mal do Thiago Lacerda, que ele não era ator e tal, eu concordo, o Lacerda aprendeu a atuar, ele não é nato, como a Fernanda Montenegro (por isso que às vezes dou uma espiadinha em Passione, aquela mulher é extraordinária, como será que ela se sente fazendo programa para lavadeiras??). Ah não, eu gostaria de ser um ator de renome mesmo, ser chamado de pai de alguma coisa, como o Marlon Brando é chamado de 'pai da atuação moderna'. Esqueça essa porra de Marlon Brando, Gian! Ele ficou muito gordo antes de morrer, ninguém gosta dele mais. Ele ficou gordo! E isso eu acho que é algo muito importante...As pessoas falam em gordura o tempo todo, minha mãe é uma delas.

HAHAHAHAHA. Família! Gente, é sério. Chega a ser patético. Vocês já viram aquela série Gilmore Girls? Então, minha mãe é a Lorelai em reverso. Vocês sabiam que ela não sabe nem o nome do lugar que eu trabalho? E os papos dela se resumem à comida e a estar gorda. Isso quando ela não está preocupada que a pia está suja ou que meu irmão (lindo de morrer mas sonso que nem uma porta) comeu as três pizzas que estavam no freezer. Já meu pai é suportável, mas bem distante (ele não chegar a ser o 'Daddy' de Plath, tudo bem), a gente não conversa nunca (porque eu odeio futebol: grama, grama, grama), mas ele já tem uma cabeça mais aberta e não é neurótico por causa de formigas. Meu irmão é a figura mais legal, ele viu uns filmes cults, como O Silêncio dos Inocentes (vocês acreditam nisso???) e Pulp Fiction, e não liga para nada, está aí para o que der e vier, nossa relação é muito interessante, de crescimento, isso é claro, pode continuar se ele não cair no mundo das drogas ou ser morto por um assaltante de ônibus (se bem que ele nunca anda de ônibus). O toque do celular dele é Come As You Are. Lindo! Meus avôs paternos são o máximo. Quer dizer, eu nunca conversei muito com meu avô, o que ele fez mais até hoje foi me dar dinheiro (se bem que hoje em dia nem isso ele faz, será que ele pensa que vai levar para sepultura? 85 anos, pessoal).

Agora, para a minha avó dedico um parágrafo inteiro. Ela me criou, aguentou (e aguenta) todas as minhas crises de depressão, me alimenta, conversa comigo, se importa com meu trabalho e meus estudos, arruma meu quarto, me dá dinheiro, conselhos, vai atrás de remédios e médicos nas minhas crises hipocondríacas. Enfim, a vida dela é um inferno, mas ela já conseguiu me tirar do buraco muitas vezes. Eu estaria morto sem ela, literalmente. Morto, assim como Jane Austen, Charles Chaplin, Bette Davis, Audrey Hepburn e as outras milhares de pessoas que morrem todos os dias.

A morte é algo que eu não aceito, principalmente nessa fase cética da minha vida. A gente morre e acaba, é isso? E aqueles vinte anos meus que se perderam, não vou ser recompensado com uva, pêra e salada mista? Eu iria ter altos papos com Jesus, acho que Deus seria mais aquela figura jurídica, ocupada. Mas se nada disso existir? A gente morre e vira comida (clichês, clichês). Imagina passar a ETERNIDADE debaixo da terra, mas pensando pelo outro lado, passar a ETERNIDADE no céu talvez seria demais para mim, se bem que na vida eterna eu poderia conversar com várias celebridades, mas acho que eu ficaria logo entediado. Eu acabaria achando tudo aquilo um saco. Raul Seixas já deve estar estrangulando Maria nessa altura...

Então, supondo que a morte é o fim, que é a pior das hipóteses, a cada segundo eu vou morrendo. E meus próximos vinte anos? Irão ser brancos como os anteriores?? Será que eu só vou conseguir preencher com filmes, poesia e música? Pelo menos seu eu virasse um poeta cult, eu teria vários bajuladores falsos e assim eu poderia fazer um jantar todos os finais de semana (bem melhor que ir ao show do Bruno e Marrone). E faria jantares no melhor estilo A Doce Vida, um filme muito bom por sinal. Quem quer ler sobre A Doce Vida aí?? Estou só brincando!

Eu ainda não tirei visto, nem passaporte e muito menos carteira de motorista. Minha conta bancária está zerada e eu estou passando a eternidade pagando as Lojas Americanas por causa dos juros acumulados. Isso tudo porque eu comprei centenas de filmes e alguns livros caríssimos. Um prazer culpado, tão bom quanto tirar casca de ferida, mesmo sabendo que pode dar câncer (mas eu acho que isso é mentira, foi minha mãe que disse, e ela é tão confiável quanto o dicionário de Samuel Johnson). Eu acho que vou terminar de pagar essa loja maldita o mais rápido possível, cancelar meu plano de saúde e parar de trabalho no ano que vem. Então eu vou conseguir me concentrar na minha monografia e ler mais, ver mais filmes e baixar mais músicas legais. Mas como eu vou tirar carteira e comprar um carro?? Porque a gente tem que ter um carro não é? Ter um carro para ir à boate e para o show do Bruno e Marrone. Brincadeira, eu quero tirar só para poder fazer meu intercâmbio, mas se eu parar de trabalhar, como eu vou pagar o intercâmbio?? Vocês lembram que meu avô parou de me dar dinheiro? Então...

Eu até pararia de me importar com dinheiro e sucesso se eu conseguisse namorar com alguém que eu amasse. Eu me apaixonei já, eu até amo ainda, mas foquei em alguém muito parecido comigo (que até ama a Björk, não gosta, AMA! Isso é tão raro quando achar um escaravelho dourado que te leve à um tesouro). Escolha errada, Gian, escolha errada. Ele brilha, mas não é para você. Entendam: com ele eu continuaria a ver a vida com uma ávore negra, mas eu riria dela, ao invés de ser sugado por suas raízes.

Acho que eu vou procurar alguém que gosta do Luan Santana! Mas depois de um tempo eu já estaria fingindo crises de melancolia para ficar em casa (e assim pode ver um filme com a Jean Harlow que estaria passando no TCM).

Hoje ainda eu tenho que terminar um conto de Edgar Allan Poe, adiantar minha leitura de 'Pride and Predujice', assistir aos extras de Farenheit - 11 de Setembro, do Michael Moore (teve uma vez que eu perguntei para os meus alunos quem era Michael Moore e ninguém soube responder, mas todos eles namoram, aposto!!), ler algumas críticas de cinema, assistir Molly Shannon (estou muito curioso, ela imita Courtney Love e Julie Andrews), e ainda ver o novo clipe da Rihanna, para poder ter papo na segunda-feira.

Eu vou acabar saindo dessa fossa ou então seguir o conselho de Kafka, a baratinha (o conselho dele está ao lado da página desse blog, é aquele com uma cara que parece uma mistura de judeu com Adrien Brody). E já que eu TENHO que fazer aquele monte de coisas que listei acima e minha mãe já está berrando para eu sair (pois ela vai usar o computador agora para entrar no site da Ana Maria Braga), é melhor eu sair mesmo. E por fala na minha querida Sra. Bates, vocês acreditam que já faz mais de um mês que ela comprou um laptop e nem tirou do plástico?

4 comentários:

alan raspante. disse...

Gian, sério, me emocionei. Acho que vou imprimir e grudar no meu guarda-roupa, rs, Ok exagerei, mas se eu falar que este texto está ótimo, pode soar uma certa falsidade, já que todos falaram a mesma coisa.

Na última vez que a gente conversou pelo MSN, vc me falou: "É, vc deve pegar muita gente e etc..." Cara, eu ri tanto naquela hora que vc nem tem ideia. Moro em uma cida até "globalizada", porém ainda é pacata, minha mãe é religiosa ao extremo, meu pai faleceu a um ano - e era o único no qual eu tinha um vínculo de verdade- minha família por parte de pai nem sabe se ainda estou vivo, minha família por parte de mãe apenas torce para que eu não morra agora, pois sou o único da família que não tem uma 'cova paga'. Tenho um padrasto que eu odeio.

Amigos ? Bem, esses dias eu estava pensando: "Pô, to sempre disponivel para todos... mas porque ninguém nunca está disponível para mim ?" Já que quando chamo para sair, pegar um cinema, todos já tem compromisso ou simplesmente ficam sem grana ou do nada, uma tia do cazasquistão aparece. Então, amigos, não tenho.

Amor ? Estou me perguntando muito sobre esta palavra, cheguei em uma conclusão que isso talvez não exista, sei lá. Bem, esta é a pior parte, é a mais precária.

Agora, além de tudo isto tem a questão do emprego, não consigo achar trabalho. Acho que ver filmes não ajuda muito neste quesito...

É, difícil falar tudo isso e nem sei porque estou falando (será, que vc está lendo ?), mas estou em um momento tão "puto de tudo". que nem me importo mais em falar com o primeiro estranho que me aparece na minha frente. O tempo passa e eu ainda estou aqui, do mesmo jeito, com os mesmos sonhos, apenas mudam os fracassos, impressionante como sempre se renovam. Tudo pode te abandonar, menos dívidas e frustrações, elas são para sempre!

Sabe os filmes que tanto vejo ? Então, tem dois motivos 1) Não tenho muitas ocupações, então, os filmes ajudam.
2) De alguma forma, tudo aqui me reconforta, é como se naquela hota eu fosse outra pessoa, completamente diferente e na onde os sonhos não são apenas sonhos. Entende ? Acho que neste momento de alguma forma eu me sinto...real, ou, vivo.

Em alguns momentos tenho que lembrar de tomar água ou respirar, me esqueço dessas duas coisas, e na maioria do tempo me esqueço de mim, esperando que algum dia, respirar realmente valha a pena, o pior de tudo é saber que este dia nunca pode existir.

Desculpa por este longo texto. Mas tinha que desabafar, acho que as paredes não me aguentam mais.

Abs, te cuida.

Gian Le Fou disse...

Valeu por ter desabafado. 'Só os fracassos que mudam...' =)

Beijos.

Ald Junior disse...

Eu já namorei muito.
Também tenho muitos amigos.
Já briguei sério, mas nunca bati em ninguém. Já apanhei, rs.
Já mandei flores.
Já fiquei mais de uma semana transando adoidado com uma namorada,=P
Já viajei para as montanhas e já coloquei namorando algumas vezes no Orkut.
Já partir pra outra.
E sempre passei o reveillon com pelo menos vinte amigos.
Tenho passaporte e carteira de motorista.

Mas quer saber...
Queria mesmo ter tido mais tempo com a Clarice, Marilyn, Madonna, Sylvia, Marlon, Anne e até com a Dorothy Gale, rs.
Ter lido mais críticas de cinema, mais livros... E estourado meu cartão com livros e filmes.

Por isso, morro de inveja de você!!! = )

Parabéns pelo texto! Queria ter essa coragem.

Boa semana!!!

Ana Pe disse...

Gian,

Ainda não plantei uma árvore e muito menos escrevi um livro... as vezes a minha vida é um tédio com um T gigante e as vezes é uma maravilha... ou seja, é a vida!

É muito bom desabafar e sempre faça isso pra que nunca haja mágoa e nem rancor, porque isso sim é uma verdadeira desgraça na vida de alguém.

A paciência é uma virtude!

Saudades,