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25/10/13

Reunião de Família, por Sylvia Plath

Resolvi traduzir Family Reunion, da minha poeta preferida, já que existem poucas traduções dos poemas de Plath que não estão publicados no livro Ariel (existem alguns outros textos dela traduzidos por mim aqui no blog). Eu me identifico bastante com o tema desse poema, e qualquer tradução é perigosa se tenta transmitir com exatidão as imagens e sentimentos que o autor nos quer passar. Mas vejo a tradução não como uma cópia do trabalho original, mas como um trabalho que tenta criar uma impressão semelhante no leitor em relação ao texto original, uma segunda leitura (dentro da concepção do tradutor também sendo escritor), mesmo que se use outros verbos, metáforas, nomes próprios etc (porém tentei manter a mesma relação de rimas das estrofes originais).

Reunião de Família

Lá fora na rua eu escuto
Uma porta de carro bater; vozes para um ouvido astuto
Trechos estranhos de conversas
E sapatos tiquetaqueando na travessa
A campainha rasga o sol vespertino        
Com unhas de navalha;
Uma pausa imperceptível.
O barulho embotado dos meus pulsos
Luta contra um silêncio que se esgota
Alguém de dentro abre a porta.
Ó, ouça os sons das pessoas que se encontram ---
As gargalhadas e os gritos dos que se amam:
                                           
Eternamente gorda e sem ar                                                      
Um beijo gorduroso em cada bochecha
Da tia Guiomar; 
Olhe lá, lá está a rosadinha, que vive dando gritinhos
Prima Jane, a solteirona
Com olhos apagados
E mãos que nem nervosos passarinhos;  
Enquanto isso, parecendo madeira estilhaçada, tio Paulo
Atravessa a sala
E com sua voz desagradável
Conta detestáveis piadas.
O sobrinho mais novo geme irritavelmente
E baba na fila de doces como um demente.
                                                                                                                
Como um mergulhador numa região elevada
Eu fico em pé no último degrau da escada
Um redemoinho diz que vai me dar sorte,
Eu me despeço da minha identidade        
E mergulho para a morte.


Family Reunion

Outside in the street I hear
A car door slam; voices coming near;
Incoherent scraps of talk
And high heels clicking up the walk;
The doorbell rends the noonday heat
With copper claws;
A second's pause.
The dull drums of my pulses beat
Against a silence wearing thin.
The door now opens from within.
Oh, hear the clash of people meeting ---
The laughter and the screams of greeting :

Fat always, and out of breath,
A greasy smack on every cheek
From Aunt Elizabeth;
There, that's the pink, pleased squeak
Of Cousin Jane, out spinster with
The faded eyes
And hands like nervous butterflies;
While rough as splintered wood
Across them all
Rasps the jarring baritone of Uncle Paul;
The youngest nephew gives a fretful whine
And drools at the reception line.

Like a diver on a lofty spar of land
Atop the flight of stairs I stand.
A whirlpool leers at me,
I cast off my identity
And make the fatal plunge.

----- // -----

Ouça a narração (no original) do poema no vídeo abaixo. A voz que o narra é belíssima, bem diferente da voz de Plath, forte e cruel (e que é maravilhosa também).

video





08/10/13

In the street / Na rua



In the street

Leafs on the asphalt;
God’s hand in the wind. 

 //

Na rua 

Folhas no asfalto:
A mão de Deus no vento. 





Poema baseado em In a Station of the Metro, de Ezra Pound. 




06/10/13

Poema: Bill Williams’ whisper



Bill Williams’ whisper


The sick chest
Of the

Old house where
The rose

Will perish lie
A black cat:

Green eyes looking
At the sky.

//

O sussurro de Bill Williams


O peito doente
Da

Velha casa onde
A rosa

Irá perecer jaz
Um gato preto:

Olhos verdes olhando
Para o céu.






Poema baseado em Between Walls, de William Carlos Williams:




30/09/13

O Projeto Secreto de Madonna


As impressões que eu tive após ver o Secret Project foram muitas. Vou tentar resumir algumas delas.

Madonna está realmente engajada outra vez, mas agora ela elevou seu engajamento social a um nível mundial, numa espécie de 'evolução' da era American Life. Naquela época, Madonna se preocupava especialmente com o que estava acontecendo nos EUA, agora os seus trabalhos (tanto a turnê quanto quando o projeto) são reflexos dos acontecimentos mais graves que estão acontecendo no planeta. É de se admirar a fluidez e o impacto do curta-metragem. O texto recitado por ela é claro e sem pieguices, embalados por uma voz quase rouca e aparentemente serena de quem sabe o que está falando e sabe o que quer. As imagens também fluem, com uma boa edição, bela fotografia e com uma trilha sonora tímida, bonita e inquietante (o hino nacional e a melodia usada em Like a Virgin na MDNA foram opções acertadíssimas, além de trechos de discursos políticos, áudios da turnê, sons de violência, pássaros e outros a serem percebidos). Eu também destaco a sequência de balé e o ambiente decadente em que ela passeia com suas 'vítimas'. O uso de apetrechos e figurinos da turnê também se destaca, é um jeito de Madonna mostrar o quanto se preocupa em ser coerente com suas escolhas artísticas e de dar certa continuação aos seus trabalhos. É um trabalho para ser assistido várias vezes e assim perceber detalhes perdidos.

"Liberdade é aquilo que você faz com o que fizeram com você."

 Quem mais se identifica com essa frase do Sartre?

 
 
Veja abaixo o vídeo completo do projeto com legendas: