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27/03/2011

Quando o estereótipo funciona


Deixa eu dividir essa história com vocês: Estava eu hoje no MAES (Museu de Arte de Espírito Santo) vendo uma exposição, quando descubro que um filme do meu chará Jean-Luc Godard estava prestes a ser rodado junto com um bate papo com um crítico cinematográfico. Até aí tudo beleza. Fiquei hiper feliz e fui sentar na salinha onde o filme iria ser exibido. Muitas pessoas já estavam lá e outras foram chegando, no geral, mulheres comuns sozinhas ou acompanhadas por amigos gays e senhores e senhoras com aquele ar intelectual e de interesse irrepreensível. No meio desse público já esperado aparece, para minha surpresa, um casal (homem e mulher) lindíssimo. A mulher era gostosa e usava uma roupa curta (mas não vulgar) e o homem era loiro e também bem gostoso (mas não bombado), enfim, realmente um belo casal. Então eu olho e me pergunto: Mas que diabos esse casal está fazendo em um museu às três e meia da tarde num sábado? Até mesmo o crítico que estava lá fez aquela piadinha irresistível de perguntar para a audiência da província o porque dela não estar curtindo uma praia naquela hora.

Quando o filme começa (após uma deliciosa introdução feita pelo crítico mineiro), tento deixar a minha perplexidade de lado. Eu já começava a ter esperança que a teoria (acho que de Darwin) de que pessoas bonitas (que se 'destacam') são burras e pessoas feias (ou 'comuns') são inteligentes não passava de uma baboseira quando o casal, visivelmente supreso e entediado, sai aos 15 minutos (mais ou menos) da projeção. E não volta mais.

Não foi dessa vez que os representantes da beleza provaram que podem sair do estereótipo. Pena.

Só por curiosidade: O filme do Godard se chama 'Um Mulher é uma Mulher'. Brilhante exemplar do movimento da Nouvelle Vague, com Anna Karina e Jean Paul Belmond.


10/05/2010

Meu preciooooooooooooooso















O Senhor dos Anéis
(2001, 2002, 2003)













































































Jogar Um Anel na fogueira não é tão fácil quanto parece.

09/05/2010

O Sol é Para Todos (1962)


Apenas na terceira vez que assisti O Sol é Para Todos eu percebi o quão riquíssima é a obra dirigida por Robert Mulligan e estrelada por Gregory Preck. Baseado no romance To Kill a Mockingbird da ganhadora do prêmio Pullitzer Harper Lee, o filme é, acima de tudo, um retrato da vida mostrada pura e simplesmente, sem graves distorções maniqueístas e principalmente, carregada de maturidade.

O ano é 1932, apenas três anos depois da Grande Depressão. Em Maycomb, uma pequena e preguiçosa cidade do Sul dos Estados Unidos, vive Atticus Finch (Peck), um pacato advogado viúvo que não mede esforços para poder servir o povo de sua comunidade afetado pela crise, aceitando até repolho em forma de pagamento pelos seus serviços. Ele tem dois filhos pequenos, a marrenta Scout (Mary Badham) e o esperto Jem (Phillip Alford). Os dois vivem em harmonia, tanto entre eles quanto com o pai, que por alguma razão apenas o chamam pelo primeiro nome. Os dois adoram imaginar histórias sobre Boo Radley (Robert Duvall), um homem que é sabido ter cometido um ato brutal contra o pai anos atrás e agora vive preso na casa da família. Enquanto Scout e Jem estão preocupados em invadir o quintal de Boo, Finch aceita defender Tom Robinson (Brock Peters), um negro acusado de ter estuprado Mayella (Collin Wilcox Paxton), uma branca humilde filha do temperamental Bob Ewell (James Anderson).

O filme foi realizado quando o Movimento dos Direitos Civis para os Negros Norte-Americanos (1955 - 1968) estava no auge. A população negra lutava por reformas na América com o intuito de acabar com a discriminaçãoo e a segregação racial que tanto manchou o país. Na época em que o filme se passa, ainda se erguendo da crise e sofrendo com a ascensão de regimes totalitários, o preconceito era palpável, explícito, a ponto de um negro ser motivo de riso e piada se sentisse pena de uma branca, por mais miserável que ela fosse, o simples fato de ser branco já era um ponto a favor de alguém.






















Finch tenta manter todo o ódio e preconceito longe dos filhos, que só começam a tomar consciência da dimensão da situação quando o pai fica na frente da prisão onde Robinson está mantido para evitar um linchamento por parte dos habitantes da cidade. A situação é bastante confusa para Scout e Jem, que ao mesmo tempo em que conhecem a gravidade do preconceito, são parcialmente educados pela rígida porém adorável Calpurnia (Estelle Evans), a empregada negra da família. É interessantíssima a liberdade que Finch dá a Calpurnia para ensinar algumas lições aos seus filhos, mostrando o seu caráter desprovido de preconceito.

Além de lidar com a confusão de sentimentos em relação aos negros, Jem e Scout também repensam sobre Boo. Quando os dois encontram miniaturas suas feitas por Boo numa casca de árvore perto da casa dele, elas começam a imaginar como é Boo na verdade: seria realmente um louco psicótico como todos o pintam ou um ser humano tão íntegro quanto é capaz de ser? Tanto o caso de Tim Robinson quanto o misterioso Boo são o ponto de partida para o despertar das crianças para um conceito maior de ser humano e o que implica ser 'diferente' para uma sociedade sustentada pela ignorância.














No julgamento, a inocência de Tim Robinson é evidente, e o discurso de Atticus Finch é bastante claro quanto as motivações de levar aquele negro a júri popular em uma comunidade tão frágil. Nãoo havia nenhuma comprovaçãoo médica de que Mayella teria sido estuprada e seu depoimento, oscilando entre a sinceridade e o medo, apenas comprova a inocência do homem.

As atuações são outro ponto forte da obra. Brock Peters apresenta uma das performances mais intensas já vistas e Gregory Peck, que levou o Oscar de Melhor Ator, faz de Atticus Finch um homem contido e conciso, nunca se exaltando, nem quando leva uma cusparada na cara de Bob Ewell, limitando-se a pegar um lenço para limpar o rosto, tão incorruptível que seu personagem foi eleito o maior herói do cinema americano. As crianças também estão muito bem, Mary Badham dá vida a uma das crianças mais adoráveis do Cinema, e destaque também para Paxton, que interpreta Mayella de uma forma vigorosa e bastante convincente. O Sol é Para Todos é com certeza um filme de atuação, além ainda de contar com a mais bela fotografia em preto-e-branco já concebida e uma excepcional trilha sonora, que remete a uma tímida tristeza.

A película de Mulligan é uma obra completa, não se fazendo uso de situações ou momentos forçados em seu desenrolar, muitos podem achar o filme chato justamente por esse falta de 'tensão', se existisse, seria desnecessário e criaria uma falsa impressão de acontecimentos gratuitos em um ambiente inóspito para tal empreitada, e isso apenas comprova a sua maturidade. Os personagens passam suas vidas da forma mais natural possível, verão após verão, sem pressa, na poeirenta cidade de Maycomb, vivendo o que tiverem que viver.