Como era irritante querer ler naquele dia chuvoso. Provavelmente eu iria ficar um tempo considerável no ponto esperando o ônibus, e nessas ocasiões eu sempre aproveitava para adiantar alguma leitura, assim eu tinha impressão que não estava perdendo tempo. Perdendo tempo. Mas naquele dia chuvoso era impossível, a marquise do ponto estava lotada e eu precisava segurar o guarda-chuva... Que situação irritante! Entenda-me bem: quando estou dentro do ônibus eu não sento no lugar reservado para os idosos por maldade (mesmo que às vezes eu tenha ódio de alguns deles pela falta de educação), e nem é para afirmar meu status de jovem saudável que tem toda a vida pela frente, nada disso, até porque eu não me sinto jovem e muito menos saudável. Eu não tenho toda a vida pela frente, entenda isso. Entenda-me bem: Eu sento em um daqueles lugares porque eu quero adiantar a minha leitura, só por isso! São quase duas horas dentro do ônibus (duas na ida e duas na volta). É tempo demais. Porque os idosos não tem compaixão pela minha sede de conhecimento e me deixam quietinho lá? Eles irão morrer se ficarem em pé? E a maioria não fica nem 20 minutos lá dentro! Sem contar aqueles que entram em um ponto e saem no ponto seguinte! E tem mais: porque um homem de 70 anos pegaria um ônibus às seis e meia da manhã? Eu não consigo entender isso. Cadê os filhos dessas criaturas para ajudá-los? Depois dessa vida inteira, eles ainda precisam sair às seis da manhã? E para ir aonde afinal? O destino dos idosos é algo que sempre me intrigou. Se eu chegasse aos 70 anos, eu já queria ter viajado para todos os lugares nas mais variadas horas possíveis. Aos 70 anos, eu gostaria de uma cama quentinha e um chá de limão. Aos 70 anos eu não preciso mais ler um livro por semana, mas aos 20 eu preciso, entenda isso. Mas naquele dia, os idosos ainda não tinham aparecido na minha vida. O problema era a chuva e a marquise lotada. Meu livro na bolsa, aquele desperdício doía. Em cada minuto que passava eu perdia uma linha que poderia mudar minha forma de pensar, de agir, de escrever, meu futuro indo embora.
Havia, ao lado da marquise, um vendedor de bombons. Era um homem com seus quarenta e poucos anos, moreno claro, forte, cabelo esbranquiçado e traços marcantes, muito bonito. Sentada ao lado estava a sua filhinha, em torno de dez anos, também morena, cabelos enrolados e sem olhar de pena. Sentadas na marquise, ocupando o meu lugar, havia duas mulheres horrorosas, gordas, cheias de parafernálias e com vozes grosseiras. Duas surpresas: elas interagiam com aquele vendedor e estavam esperando o ônibus com ar condicionado. Nem eu tinha dinheiro para aquele tipo de condução. Elas estavam ocupando o meu lugar, elas não estavam lendo, estavam interagindo com aquele pai maravilhoso e ainda iriam embora usando a melhor condução da cidade!
- Quanto é o bombom? Perguntou uma delas, qualquer que seja, naquele ponto aquelas duas já eram uma mesma massa, insignificante para mim.
- Um real cada. Só um real.
A voz daquele vendedor era deliciosa, como moldada para sobreviver naquele ambiente hostil e indiferente.
- Tem de que? Uma parte daquela massa perguntou.
- Tem de coco, brigadeiro, morango...
- ESSE ÔNIBUS QUE NÃO PASSA! OLHA ELE! ELE LÁ! AH, NÃO É NÃO!
- Uva, maracujá, amargo...
- CADE ESSE ÔNIBUS? NÃO É AQUELE NÃO, MÃE? MÃÃE?
- ONDE FILHA, ONDE? NÃÃO!
- Eles estão uma delícia, eu mesmo faço o chocolate com leite...
- NÃO SEI, ELA FOI ONTEM LÁ, ELA ME LIGOU!
- TE LIGOU? ONTEM? NO CELULAR?
- FOI!
- Então, só um real cada.
De onde vinha aquele homem? Pessoas bonitas que trabalhavam informalmente sempre me atraíram. Eu adoro criar histórias para esses príncipes e princesas que foram enxotados de seus castelos pela feiticeira malvada. Aquele homem me pareceu mais nobre do que a maioria das pessoas que eu conheço intimamente. Havia um ar de placidez e organização em todo aquele processo de feitura e venda de bombons junto à capacidade de lidar com a sordidez dos outros que me fascinava realmente. Eu nunca seria capaz de fazer tudo isso. Numa situação como aquela, eu já teria ofendido aquelas mulheres da maneira mais mesquinha que pudesse. Sem contar que eu nunca saberia organizar uma barraquinha de bombons tão apaixonadamente, uma loja da Tiffany não poderia ser mais atraente do que aqueles bombons formando uma espécie de disposição natural, como um recife de coral. Eu não tenho o dom de organizar coisa alguma, de criar toda uma vida com base num amor inquestionável, inquebrável. Eu nasci para ler, para viver a história dos outros, para julgar os outros, para enfeitar os outros. É por isso que aquele dia chuvoso com a marquise lotada me irritava, é por isso que eu sento no lugar dos idosos. Não é por maldade, juro!
Gian Luca
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04/04/2011
27/03/2011
Quando o estereótipo funciona
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Gian Le Fou

Deixa eu dividir essa história com vocês: Estava eu hoje no MAES (Museu de Arte de Espírito Santo) vendo uma exposição, quando descubro que um filme do meu chará Jean-Luc Godard estava prestes a ser rodado junto com um bate papo com um crítico cinematográfico. Até aí tudo beleza. Fiquei hiper feliz e fui sentar na salinha onde o filme iria ser exibido. Muitas pessoas já estavam lá e outras foram chegando, no geral, mulheres comuns sozinhas ou acompanhadas por amigos gays e senhores e senhoras com aquele ar intelectual e de interesse irrepreensível. No meio desse público já esperado aparece, para minha surpresa, um casal (homem e mulher) lindíssimo. A mulher era gostosa e usava uma roupa curta (mas não vulgar) e o homem era loiro e também bem gostoso (mas não bombado), enfim, realmente um belo casal. Então eu olho e me pergunto: Mas que diabos esse casal está fazendo em um museu às três e meia da tarde num sábado? Até mesmo o crítico que estava lá fez aquela piadinha irresistível de perguntar para a audiência da província o porque dela não estar curtindo uma praia naquela hora.
Quando o filme começa (após uma deliciosa introdução feita pelo crítico mineiro), tento deixar a minha perplexidade de lado. Eu já começava a ter esperança que a teoria (acho que de Darwin) de que pessoas bonitas (que se 'destacam') são burras e pessoas feias (ou 'comuns') são inteligentes não passava de uma baboseira quando o casal, visivelmente supreso e entediado, sai aos 15 minutos (mais ou menos) da projeção. E não volta mais.
Não foi dessa vez que os representantes da beleza provaram que podem sair do estereótipo. Pena.
Só por curiosidade: O filme do Godard se chama 'Um Mulher é uma Mulher'. Brilhante exemplar do movimento da Nouvelle Vague, com Anna Karina e Jean Paul Belmond.
26/06/2010
Eu sou a arte
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Gian Le Fou
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19/06/2010
Keith Haring (1958 - 1990) - Arte Feliz
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Gian Le Fou
Se eu não pegar AIDS, ninguém pegará.
Haring.

Keith Haring começou a se destacar ao fazer sua arte em giz na estações de metrô de Nova York. O trabalho de Haring faz parte do ápice da cultura pop-arte da capital do mundo nos anos 80. Apesar de criar algo alegre e aparentemente nada além de divertido, Haring emprega em suas obras temas homo-eróticos, gravidez e sexo seguro (apesar de infelizmente ter morrido de AIDS)













Haring também realizou trabalhos beneficentes e criou em 1988 a Keith Haring Foundation, em favor de crianças vítimas da AIDS.
Madonna homenageou o artista em sua última turnê, a Sticky and Sweet Tour, ao som de Into the Groove.



Haring.

Keith Haring começou a se destacar ao fazer sua arte em giz na estações de metrô de Nova York. O trabalho de Haring faz parte do ápice da cultura pop-arte da capital do mundo nos anos 80. Apesar de criar algo alegre e aparentemente nada além de divertido, Haring emprega em suas obras temas homo-eróticos, gravidez e sexo seguro (apesar de infelizmente ter morrido de AIDS)













Haring também realizou trabalhos beneficentes e criou em 1988 a Keith Haring Foundation, em favor de crianças vítimas da AIDS.
Madonna homenageou o artista em sua última turnê, a Sticky and Sweet Tour, ao som de Into the Groove.



26/05/2010
Gays e Madonna
Postado por
Gian Le Fou

Eles (homossexuais) são encarados como marginais, e por isso me identifico com sua situação. Por outro lado, sinto que a maioria dos gays mantém contato com uma certa sensibilidade que os homens heterossexuais não se permitem deixar aflorar, seu lado feminino. Para mim, são seres humanos integrais, mais do que a maioria dos heteros que conheço.

Serei um símbolo de alguma coisa. Como Marilyn Monroe representa alguma coisa. Nem sempre é algo a que se possa atribuir um substantivo, mas ela se tornou um adjetivo.


Madonna e sua arte.
23/05/2010
Especial: Julie Andrews
Postado por
Gian Le Fou

Julie Andrews nasceu em 1º de outubro de 1935 em Walton-on-Thames, Inglaterra. Desde muito cedo ela se mostrou um talento nato para a música. Já em 1947, com apenas 12 anos, Andrews começou sua vida artística se apresentando para tropas britânicas durante a Segunda Guerra Mundial. Também aos 12 anos, ela foi a cantora mais jovem a se apresentar, junto com Danny Kaye, os Irmãos Nicholas e o grupo de comédia George and Bert Bernard, para a família real britânica, no reinado de George VI.



Em 30 de setembro de 1954, Julie Andrews estreou em sua primeira peça da Broadway, no musical The Boy Friend, em que interpretou Polly Browne, uma menina em busca de um namorado para o baile de outono da escola.



Em 1956, a atriz britânica interpretou, ao lado do lendário Rex Harrison, a pobretona Eliza Doolittle no musical My Fair Lady, seu personagem de maior sucesso no teatro (e uma das produções de maior sucesso da Broadaway, chamado por muito de 'o musical perfeito'). My Fair Lady conta a história de uma vendedora de flores (Andrews) que é posta como objeto de estudo do professor de fonética Henry Higgins (Harrison), que a transforma em uma dama da alta sociedade após ensiná-la como falar propriamente e se comportar. No primeiro momento, há um atrito muito grande entre Eliza e Henry, justamente pelo professor a ver apenas como uma aluna que recebeu a oportunidade de se tornar uma dama por causa de uma aposta com um amigo. Mas o tempo passa e inevitavelmente os dois se apaixonam, quando Higgins acaba se acostumando com o rosto da ex-florista.





Incrível vídeo que mostra os ensaios de Andrews para a grande peça:
Quando a peça se tornou filme, não foi Julie Andrews a escolhida, mas sim Audrey Hepburn (Sabrina, A Princesa e o Plebeu). A 'troca' se deu devido ao fato que Hepburn já era uma estrela consolidada (apesar de não saber cantar, todas as canções da obra cinematográfica foram dubladas), já Andrews nunca tinha feito filme algum (Hepburn já tinha arrematado o Oscar de Melhor Atriz por A Princesa e o Plebeu). A vida de Julie Andrews no cinema iria começar apenas oito anos mais tarde, em Mary Poppins, como a babá mais querida do mundo.
Em 1960, quando Andrews interpretava a rainha Guinevere ao lado de Richard Burton na peça Camelot, Walt Disney ficou encantado pela moça. Com o projeto já formatado de fazer o primeiro longa dos estúdios Disney que não seria do gênero animação, Walt Disney viu em Julie Andrews a atriz perfeita para o papel. Só tinha um pequeno detalhe: ela estava no começo da gravidez. Mas o fato não foi problema, Disney disse que esperaria o tempo necessário para começar as gravações, e assim o fez.



Cenas de Camelot (infelizmente não consegui incorporar):
http://www.youtube.com/watch?v=uCUY2OLZTz8&feature=related
Mary Poppins foi o filme de maior sucesso da Disney (dentre os de não animados). A obra ganhou cinco Oscars, sendo um o de Melhor Atriz para Julie Andrews, surpreendentemente em seu primeiro papel no cinema. O filme ainda recebeu mais sete indicações, incluindo melhor filme. Enquanto Andrews rebatara um dos prêmios principais, Audrey Hepburn sequer concorrera ao prêmio naquele mesmo ano por sua perfomance como Eliza Doolittle. Entretanto, My Fair Lady levou nada menos que nove Oscar, os principais sendo de melhor filme e melhor direção (George Cukor).
Más línguas alegaram que Julie Andrews recebera o Oscar como se fosse um prêmio de 'consolação' por sua não participação em My Fair Lady e por Audrey Hepburn ter sido dublada nas canções. Essas alegações são ridículas visto que Andrews nos entregou uma grande perfomance (talvez uma das maiores atuações femininas do cinema americano).



Julie Andrews recebendo o Oscar e soltando uma frase no melhor humor britânico (depois de ser ovacionada):
Eu estou ciente da hospitalidade dos americanos, mas sinceramente isso é ridículo!
No ano seguinte Julie Andrews estrelaria no maior musical de todos os tempos: A Noviça Rebelde, dirigido pelo magnífico Robert Wise (que foi o responsável por outro grande hiper-premiado musical: Amor, Sublime Amor).
Baseado na história real da família Von Trapp, Andrews interpreta a noviça Maria, que fica a cargo do cuidado de sete crianças mimadas do durão (e viúvo) capitão Von Trapp (Christopher Plummer), numa Áustria dominada pelo nazismo. O filme possui as canções mais marcantes que o cinema já produziu. A abertura da película, com Julie Andrews correndo pelos alpes austríacos e cantando a música-tema (The Sound of Music), é uma das mais imponentes da Sétima Arte. As canções Do Re Mi e My Favorite Things são clássicos dos clássicos na voz icônica de Andrews.
Por esse papel, a protagonista de Mary Poppins concorreu outra vez ao Oscar de Melhor Atriz, mas dessa vez perdeu para Julie Christie.



O fenômeno Noviça Rebelde não é apenas nos EUA (onde muitas famílias 'obrigam' os filhos a assistirem ao filme), mas como também pelo mundo afora. Na Bélgica mais de 200 pessoas se reuniram num flas mob na Estação Central de Antwerp para dançar Do Re Mi:
Pegando carona no sucesso de My Fair Lady e de Mary Poppins, Julie Andrews estrelou um programa semana, entre 1972 e 1973, chamado The Julie Andrews Hour. No episódio piloto, ela mesma interagia com Eliza Doolittle e Mary Poppins numa conversa muito divertida. O contraste cômico se dá pelas acentuadas diferenças entre Poppins e Doolitlle, enquanto a babá preza pela classe, a florista está mais preocupada em trepudiar dos acontecimentos.
Nos episódios seguintes, Andrews faria um tributo a ícones como Ginger Rogers, Fred Astaire e Judy Garland, cantaria com a verdadeira Maria Von Trapp, além de tributos aos filmes da Disney, entre outras homenagens.
Infelizmente o programa durou pouco tempo, mas mesmo assim Andrews concorreu ao Globo de Ouro de Melhor Atriz Principal em Série Musical ou Comédia pelo show.
Outros trabalhos:
Julie Andrews e os Muppets (aproveitando músicas de A Noviça Rebelde):


Estrela! (1968)

Victor ou Victoria (1982 - filme, 1995 - peça)

O Diário da Princesa 1 e 2 (2001, 2004).










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