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12/06/2011

Alma

Ele veio em minha direção e eu desejei com todas as forças que ele continuasse a diante, que ele fosse lá para o fundo. Obviamente isso não aconteceu. Ele sentou ao meu lado e eu tive que me espremer mais ainda no assento. Eu era muito alto e muito forte, ele era raquítico e velho como o inferno, parecia que iria esfarelar ao menor toque. Senti pena e raiva ao mesmo tempo. A minha beleza parecia esmagá-lo como um trator, tive vergonha de olhá-lo, tive raiva de olhá-lo. Ele me olhou com aqueles olhos oprimidos e sorriu. Por que ele sorriu? Por quê? Retribuí com um sorrisinho sem mostrar os dentes e voltei para a minha leitura.

- Que calor! E esses assentos são tão apertados, não é?

Eu olhei para ele e tive vontade de socá-lo. Como ele poderia reclamar daqueles assentos? Ele era fino como um fósforo, com certeza caberia três dele ali. Mas em uma coisa ele estava certo: estava muito calor.

- Realmente, o calor está insuportável, e esses assentos são horríveis mesmo.

Olhei meu rosto no vidro, só para garantir que a minha beleza continuava ali. Um velho daqueles pode te enlouquecer em dois minutos. Passei as mãos pelos meus cabelos compridos, lisos e ruivos e fiz um rabo de cavalo. Olhei para ele através do reflexo do vidro e vi que ele tentava se focar na vista lá fora.

- O que você está lendo?

Eu odiava responder às pessoas o que eu estava lendo, principalmente porque a maioria delas não conheceria nem o livro nem o autor, e eu era péssimo em resumir obras de arte. Alguns meses atrás uma mulher me perguntou se eu já tinha lido ‘Amada’ de Toni Morrison e sobre o que o livro se tratava, eu fiz o meu melhor: ‘é um livro sobre uma negra ex-escrava que mata o seu bebê e depois esse mesmo bebê retorna em forma de mulher para destruir a vida da mãe’. A mulher me olhou como se eu fosse um perigo para a sociedade. Em relação ao velho, eu mudei minha tática, bem coerente com o meu mais recente estilo de vida:

- É um livro sobre engenharia, lançado recentemente.

- Ah, você é engenheiro?

- Ainda não, estou no último ano da faculdade. E esse livro está me ajudando muito, e a autora dele é uma física muitíssimo renomada, chamada Virgínia Woolf.

- Ah, é? Virginia Woolf... Woolf...
Por um momento eu pensei que o velho descobriria o absurdo que eu estava dizendo e começaria a me questionar ou acharia que eu estava brincando com ele. Ele olhou de novo pela janela e murmurou outra vez:

- Woolf... Woolf... Ela é brasileira?

Eu estava salvo.

- Na verdade ela nasceu na Alemanha, mas se naturalizou brasileira quando tinha nove anos. Os pais tiveram a oportunidade de pular o Muro de Berlim e vieram para cá. É uma história muito triste, na verdade. Quando eles chegaram aqui, o governo brasileiro descobriu que os pais dela participaram de atividades subversivas na Alemanha Comunista e os denunciaram para o governo americano, eles foram mandaram para lá e foram eletrocutados.

- Que horror!

- Sim, horrível. Virginia Woolf foi então para um orfanato e durante as aulas descobriu sua paixão pela matemática, cursou Engenharia e já publicou uns três livros, todos já considerados obras clássicas da área.

- Que maravilha isso! Eu gosto muito de histórias de superação, faz o mundo parecer melhor, você não acha?

- Claro, claro. Na verdade o mundo é maravilhoso, é só você descobrir o ponto de vista correto para enxergá-lo.

O velho me olhou e franziu o cenho, como se estivesse ruminando a minha última frase e pensando de qual hit musical eu a teria extraído. Passou a mão na testa para limpar o suor, olhou para o meu livro (eu estava com a mão em cima do nome do autor) e olhou para mim outra vez com aquele sorriso.

- Meus dois netos são engenheiros. Eles trabalham na empresa do meu filho, pai deles. Os dois já estão casados e tudo o mais. Meu filho se casou de novo recentemente, a mulher dele faleceu já faz cinco anos, foi difícil para ele. Ah sim, eu vou comentar sobre essa autora com os meus netos, talvez eles a conheçam.

Eu imaginei a cena: o velho rodeado pela família, provavelmente em um churrasco na casa do filho ou de um dos netos, todos conversando sobre prédios e investimentos ou sobre qualquer outra chatice, e então ele, do nada, para se sentir parte do grupo que já o esqueceu há séculos, soltaria essa: ‘Eduardo (ou Carlos, Fabrício ou Fernando, essas pessoas sempre tem esses nomes fatídicos, você nunca vai conhecer um engenheiro que se chama Ulisses ou Paco), vocês conhecem a física Virgínia Woolf? Ela é muito famosa no campo de vocês, já escreveu três livros sobre engenharia’. Um silêncio constrangedor iria percorrer a sala, o pai olharia para os filhos, que devolveriam o olhar e o velho tomaria seu drinque, com um sorriso de satisfação no rosto. Eu olhei de novo para o meu reflexo no vidro: o seu dia só é ruim se você quiser que ele seja.

- Provavelmente eles devem conhecer, mas nunca se sabe, não é?

- Você já tem namoradinha?

- Se eu namoro? Sim, inclusive amanhã faremos um ano que nos conhecemos. O nosso namoro é meio complicado, ela é tetraplégica, só mexe a cabeça, coitada. Mas eu a amo, não adianta, quero ficar para sempre com aquela danada.

Eu namorava sim, claro. Mas ela era campeã de xadrez e inteligente como o diabo. Não era tetraplégica e era muito bonita, mas não tanto quanto eu, e isso às vezes causava certos constrangimentos, principalmente em lugares públicos onde eu recebia sempre mais atenção, mas com o tempo ela foi aprendendo a superar isso. Porém, eu também tive que ralar para que nosso relacionamento engatasse de vez, pelo simples falto de que ela não acreditava que eu fosse realmente muito inteligente, obviamente por causa da minha aparência e popularidade. Foi só depois de seis meses de namoro, quando estávamos em um bar com uns amigos e eu citei T. S. Eliot em um contexto apropriadíssimo, e ninguém entendeu (nem ela), que ela realmente se convenceu. Naquela noite tivemos a nossa melhor transa.

- Tetraplégica? Que situação difícil, não é?

- Sim, bom, hoje nem tanto mais. A gente se acostuma com tudo nessa vida, eu até me sinto bastante abençoado por Deus, acho que Ele já me deu muita coisa.

- Que bom que você pensa assim, Deus é o principal na vida da gente, sem Ele não somos nada, nada mesmo. Eu não sei como essas pessoas conseguem viver sem uma crença, sem ir à Igreja, é por isso que há tanta violência, drogas, pai matando filho e filho matando pai, eles se esqueceram de Deus.

- Sim, é muito triste. A minha mãe mesmo não freqüenta mais a igreja, está completamente transtornada, ela já tentou se matar duas vezes. Meu pai deu um tiro na cabeça no ano passado, foi muito difícil para mim e para meu irmão. Mas como eu disse: a gente se acostuma com tudo nessa vida. Eu tenho certeza que Deus os perdoou por esses crimes contra a vida, e eu também os perdoei.

- Que bom, meu filho. Que bom. O que você disse que estuda mesmo?

- Eu? Eu estudo Artes. Sonho em ser artista plástico, mas também sou fotógrafo.

- Que maravilha! A Arte é fundamental, principalmente nos dias de hoje, ela é a substituta de Deus. Na verdade Deus é um produto da arte.

- Com certeza. Precisamos confiar na Arte, ela que nos dá força e nos anima em viver, a arte dá significado à vida.

- Engraçado você falar isso, a minha sobrinha, que por coincidência é artista plástica, me disse algo parecido não faz muito tempo.

- E ela está certa.

- Espero que você consiga realizar seu sonho. O que você está lendo?

- ‘O Sol é Para Todos’, de Harper Lee. Conhece?

- Eu adoro esse livro! Eu li não tem muito tempo, me deixa ver, ah, ganhei ano passado, quando fiz vinte e sete!

- Ah, então você ainda deve lembrar de tudo!

- Claro, claro. Eu até hoje fico me perguntando o porquê de Atticus ser chamado pelos filhos pelo primeiro nome e não por ‘pai’, acho isso muito bizarro, mas ao mesmo tempo muito interessante. Na verdade eu nem quero saber o motivo, combina com a obra essa bizarrice.

- Concordo, eu também não quero saber.

Eu senti que meu sorriso tinha adquirido, finalmente, um significado mais palpável, pesado, talvez de responsabilidade.

Era ao mesmo tempo estranho e maravilhoso estar conversando sobre literatura com um homem tão lindo e forte. Eu me perguntei até quando aquela conversa poderia durar.

Ele olhou para o reflexo no vidro e fez um rabo de cavalo com seus cabelos ruivos, longos e compridos. Eu não tive coragem de olhar para o reflexo no vidro.

Eu olhei pela janela.

Gian Luca

4 comentários:

Taynara Irias disse...

E avistou o sol...
Vidro ou sol?
Só...Reflexo?
Um alma em vários (só)is.

Intenso e sutil.
Um daqueles textos que prendem os olhos, instigam a imaginação e nos surpreende.
Resta pouco fôlego para a grandeza, tantas vezes, ínfima do ser.
Muito bom!

Rique Santos disse...

Olá, parabéns pelo blog, to seguindo.

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Dayane Pereira disse...

Gostei do final!
*.*

Ana Pe disse...

Gian,

Texto maravilhoso!!!!
Amei a sua visita! Saudade de vc!